quarta-feira, 31 de agosto de 2011

GRAND THEATER PÃO E CIRCO

Gente, infelizmente não pude ver essa temporada da excelente peça da Manada Confraria de Teatro, grupo que eu admiro profundamente. Assisti há aproximadamente dois anos e afirmo até hoje que é uma das melhroes peças que eu já tive o prazer de assitir.

Curiosamente mexendo em meus back-ups, encontrei um trabalho produzido para a disciplina TEORIA DA RECEPÇÃO quando ainda estava no mestrado. Nesta disciplina, ministrada pelo meu querido orientador de então e de agora, tínhamos que fazer um comentário sobre algum espetáculo, mas a partir de um conceito de crítica bem diferente do que tenho feito aqui no blog. Neste princípio, devemos evitar fazer juízo de valor e devemos tentar nos ater apenas à descriação da experiência. É óbvio que eu não consegui mutia isenção, vocês já me conhecem...

O texto é longo, mas Kahrol Ribeiro com seu trabalho primoroso e impactante valem a longa leitura. Observem as mudanças no visual da peça, sobretudo no figurino e maquiagem que a peça foi sofrendo ao longo dos anos.

Espero que gostem. E lamento que teatro não é como cinema que deixa a obra aí pra sempre. Queria que essa peça ficasse em cartaz pra sempre, mas pra sempre não é da nossa natureza. Paciência.

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Análise do espetáculo Grand Theater Pão e Circo, da Cia Manada de Teatro.

Criação, direção e atuação: Carol Kahro


O grande cartaz com um boneco andrógino convidando o observador é provocativo. A sinopse parece um pouco pretensiosa. Diz-se que o espetáculo solo trata de questões da contemporaneidade, da influência da mídia em nossa geração, fazendo um paralelo com o pão e circo romano. Restava no ar o conflito entre o convite sedutor do cartaz e a desconfiança de sinopse tão abrangente.
No dia internacional do teatro, dentro da programação este espetáculo volta a cartaz e ei que vou render-me ao convite visual. Na entrada, o cartaz se configura em cima do palco. A atriz, andrógina como o personagem do cartaz com maquiagem precisa e figurino básico, parece assustada, recebe a platéia de cima do palco, acenando, indicando lugares para sentar. O cenário é repleto de quadrados de cores no tom terra. Algumas caixas de diferentes tamanhos e um tapete que avança para formar a parede do fundo, onde se encontram algumas telas de tv.
Terminada a entrada da platéia a atriz posiciona-se no proscênio e começa a narrar uma tragédia familiar, descrevendo os mínimos detalhes, ao mesmo passo em que vai desenhando o acontecimento com o corpo. Fala de uma família que está sob a mira de muitos revólveres de policiais que ameaçam invadir a casa se o marido não se entregar. Construindo com muita dinâmica a cena, ela passeia por todos os personagens, pai, mãe e crianças, ao mesmo tempo em que descreve a cena.
Parada brusca na história. Daí em diante a atriz vai vivenciar cenas de uma mulher normal em seu cotidiano classe média. No intersecção das cenas, porém vão aparecendo cenas nas telas de TV da violência no oriente médio. A personagem vai dialogar com os fatos apresentados na TV. O texto, construído de forma extremamente eficiente constrói com a encenação uma sensação para o público de extrema clareza de seu conteúdo, de altíssima ironia e de uma proximidade com nossa própria história, que chega a nos constranger. Rimos, mas pensamos: e eu, por acaso não sou assim? Esta é a pergunta que vai nortear todo o espetáculo.

Essa personagem vai ganhando vida através de cenas separadas com muita definição. O apuro técnico tanta do trabalho da atriz quanto das opções de encenação dão ao todo mais clareza e crueldade, pois os fatos parecem ser incontestáveis e a viagem estética que se promove através de cores e formas geométricas parece hipnotizar o espectador. A precisão do texto está no cenário, no figurino e sobretudo no trabalho da atriz.
A partir da entrada na vida desta personagem, sua relação com o filho, com a empregada, com os amigos e sobretudo consigo mesma, através das cenas de extrema solidão, mais do que revelar o stanislavkiana psicologia da personagem, vai nos provocando e retomando a todo instante a pergunta inicial: e eu, sou assim?
Uma das cenas que chama atenção pelo contraste, próprio do dia-a-dia, entre o discurso proferido e a ação realizada ao mesmo tempo. A personagem que se diz defensora dos direitos humanos e sentiu-se tocada a pouco pela morte de uma mulher no oriente médio diz para a empregada, ao reclamar da arrumação equivocada do armário: “Esta parte ficam as comidas do meu filho, aqui as minhas e aqui as que você também pode mexer.” No mesmo instante ao negar aumento de salário para a empregada, argumentando que tem que pagar a academia, pede no mesmo discurso para que a empregada cuide de seu filho no domingo à noite, implorando, recorrendo aos sentimentos da empregada, que obviamente, não recebe o aumento e ainda aceita trabalhar no domingo a noite. Independente da simplicidade do enredo desta cena, o impacto está na interpretação da atriz, que sozinha, entre caixas, nos permite experimentar a existência da empregada, dos móveis, da casa.

Em outras cenas a personagem experimenta de uma solidão profunda ao esperar pelo homem que ela considera seu namorado, mas que obviamente – isso percebe-se pela ingenuidade do diálogo dela no telefone com ele – não tem mais interesse nela. Ela, no restaurante, sem dizer palavra, senta-se, entusiasmada e o relógio digital nas telas da tv vai marcando o passar cruel da noite. 19, 20, 21... 24h. Seu humor altera-se e toda a compreensão descrita aqui parte do trabalho corporal da atriz. O intervalo entre as horas de espera no restaurante é permeada por cenas que cruzam esta, marcando horário anterior á chegada no restaurante, incluindo uma conversa com uma amiga e a conversa citada acima com a empregada. O tempo é todo cortado e o espectador é convidado a aceitar o estranho, o que não se compreende, mas se delicia no olhar, para depois respirar aliviado: Ah, entendi!!!
Durante a apreciação parece impossível não apreciar o trabalho da atriz para além da encenação. Além de nos envolvermos com a história que é contada ali e com o jogo cênico, surpreende as mudanças de personagem ou de humor da atriz fazendo o mesmo ou outros personagens.


Numa cena em que o suposto assaltante que violenta a personagem é interrogado, a atriz coloca-se no lugar de promotor público e diz impropérios a um balão de gás hélio preso a uma caixa de madeira. O balão é azul e de uma infantilidade tocante. Mas ali, na contracena com a atriz o balão é o cruel assassino que merece ser torturado e pagar por sua deficiência de moral e caráter. Num discurso contundente, irônico e provocativo a atriz como que encostasse uma navalha no pescoço do público questionando: “e você o que acha disso?” Num dado momento ela pega o dito marginal pelo “pescoço”e diz-lhe: “Alguma coisa deu errado em você. A natureza falhou. Você é um defeito da natureza.” Então convida todas as vítimas do criminoso a se vingarem dele. Promove uma fila para o linchamento organizando explicando: “crianças, idosos e gestante tem preferência.” Como fica parada esperado o primeiro a reagir, uma pessoa da platéia aceita o convite, no que a atriz rebate: “ a senhora agora, não, tem que ir para o fim da fila.” A platéia, que já estava em suspensão por conta da intensidade da cena do promotor e da crescente empolgação que adquire ao organizar o linchamento, aplaude e apega-se a este momento de poder retornar a um nível menos pesado da existência.
A seguir, a empregada volta pra casa e encontra-se com seu marido e seus filhos. Aos poucos, através das cenas realizadas e através das imagens de violência na TV, quando são projetados recortes de telejornais onde só se fala na intensidade da violência urbana, na crueldade dos métodos, na ação dos policiais que deveriam proteger e dar segurança aos civis, vamos percebendo que esta família é a família do início do espetáculo e já começamos a sofrer por antecipação, pois já sabemos o final da história. O que não nos assegura, porém de não sofrermos, pois a cena vai sendo criada numa velocidade compatível com o que vivemos hoje nas nossas relações urbanas e midiatizadas. De um outro ponto de vista, o que foi descrito no começo, vemos a mãe, os filhos e o pai, acuados pela polícia, Nas telas do cenário, os telejornais vão contando a história que passa a nossa frente, com cortes bruscos e imagens de diferentes emissoras sobre o mesmo caso. A tensão vai subindo, os textos da atriz em qualquer um dos personagens – pai, mãe e crianças – casa perfeitamente com os textos da TV. Aos poucos vamos entrando na tensão criada pela cena, a atriz, como mãe gritando desesperada para proteger os filhos, pedindo que o marido se entregue, como pai, tentando compreender o que está acontecendo, sem saber porque deveria se entregar, como os filhos, gritando com medo da morte, até que grita incansáveis vezes o nome do marido, quando atriz e platéia, já exaustos, descansam sobre a crueldade do desenrolar da história, sobre o desespero do vazio, sobre a dor de não sabermos o que fazer diante do que percebemos, mas não compreendemos.
Com os olhos cheios de lágrimas, comovida pela experiência, pelo vigor político e pelo trabalho artístico realizado diante dos meus olhos, bato palmas incansavelmente durante, sem dúvida, mais de dois minutos. A platéia em delírio. A atriz chora comovida e agradece a presença de todos.

Eu saio da sala de teatro tremendo, invadida por impressões, certezas e dúvidas. Uma sensação de maremoto toma conta de mim. Sinto tontura até. Aguardo ansiosa por um contato com a atriz, dou-lhe um breve abraço, parabenizo-a e sobretudo, agradeço. Até hoje, aguardo a volta do espetáculo para recuperar partes do enredo, soluções cênicas, imagens perdidas na escolha do olhar que requer o teatro. E fortaleço-me com o sentimento de que a arte enaltece a existência, traduz o indizível, recolore as tintas desbotadas da existência.


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